INTERSEXOFOBIA EXISTE — E EU A VIVENCIEI MUITAS VEZES.

19 de agosto de 2026 | Sem categoria | por Talita

Por Thais Emilia de Campos dos Santos

Eu sofro intersexofobia. E parte dessa violência vem justamente do fato de eu ser uma mulher intersexo e mãe de uma pessoa intersexo.

Durante meu pré-natal, quando identificaram que meu filho apresentava uma genital atípica, chegaram a sugerir a interrupção da gestação.

No nascimento de Jacob, enfrentei outra violência. Pelos corredores do hospital espalhou-se o comentário de que havia “nascido uma criança hermafrodita”. Minha família e meu bebê viraram assunto, exposição e boato justamente em um momento em que deveríamos estar sendo acolhidos e protegidos.

Depois veio uma das experiências mais dolorosas: meu filho ficou sem certidão de nascimento e eu fiquei sem licença-maternidade, porque o sistema não estava preparado para registrar um bebê intersexo.

Eu denunciei. Lutei. E transformei a violência que vivemos em mobilização política e mudança concreta.

Foi a partir dessa luta que elaborei e propus iniciativas legislativas e políticas públicas fundamentais para os direitos das pessoas intersexo no Brasil, entre elas o Estatuto Federal da Pessoa Nascida Intersexo — Lei Jacob, construído a partir da história e da luta que começou com meu filho; o Dia de Conscientização contra a Mutilação Genital Infantil; além de propostas para proteger a integridade corporal de bebês e crianças intersexo e postergar intervenções cirúrgicas desnecessárias e irreversíveis.

A luta pelo registro civil também nasceu da violência que vivemos. Trabalhei para transformar aquilo que aconteceu com Jacob em uma garantia para outras crianças: nenhum bebê deveria ficar sem existir juridicamente porque nasceu intersexo.

Essa mobilização levou o Brasil a se tornar o primeiro país a cumprir a Declaração Internacional de San José da Costa Rica nesse aspecto, abolindo a imposição de sexo e gênero no registro de nascimento de bebês intersexo quando essa definição não é possível no nascimento.

Aquilo que um dia impediu meu filho de ter uma certidão transformou-se em uma luta para garantir direitos a outras crianças e famílias.

E, mesmo depois de tudo isso, a intersexofobia não terminou.

Até hoje há quem tente dizer que eu não sou intersexo porque engravidei.

Eu sou uma mulher intersexo. Tenho laudo e documentação médica e carrego no meu corpo e na minha história as marcas das violências que sofri. Ser intersexo não significa necessariamente ser infértil. Não existe uma única forma de um corpo intersexo existir. Mulheres intersexo podem engravidar e podem ser mães.

Já ouvi de um médico que ele tinha “nojo” de mim por eu ser intersexo.

E o apagamento também aconteceu dentro dos próprios espaços de diversidade e do ativismo.

Cheguei a ser descrita em uma dissertação de mestrado como “mãe endossexo”, apagando academicamente minha condição intersexo, minha história e minha trajetória. Meu trabalho também foi chamado de “assistencialista”, numa tentativa de deslegitimar anos de atuação, produção de conhecimento e construção política.

Isso é extremamente sério.

Quando uma produção acadêmica apaga a condição intersexo de uma mulher e deslegitima sua trajetória, esse apagamento precisa ser nomeado e discutido. A academia também tem responsabilidade ética sobre aquilo que registra e perpetua.

Eu não conto minha história para disputar protagonismo.

Eu conto porque tentaram apagá-la.

E apagar a história, as vivências e as contribuições de mulheres que exercem a maternidade e de mulheres que fazem ciência é uma das expressões mais graves da misoginia na ciência.

Quando esse apagamento atinge uma mulher intersexo, misoginia e intersexofobia se cruzam: tentam apagar nossa identidade, nossa maternidade, nossa produção intelectual, nossa atuação política e nossa participação na construção da própria história.

Mulheres sempre produziram conhecimento, construíram políticas, transformaram realidades e fizeram história — embora muitas vezes tenham tentado silenciar, minimizar ou apagar suas contribuições.

Por isso, registrar nossa própria história também é resistência.

Transformei a violência que atingiu meu filho e minha família em luta coletiva, legislação, políticas públicas, pesquisa e produção de conhecimento.

O Estatuto Federal da Pessoa Nascida Intersexo — Lei Jacob, o Dia de Conscientização contra a Mutilação Genital Infantil, a luta pelo direito ao registro civil de bebês intersexo e as propostas para proteger crianças de intervenções cirúrgicas precoces e desnecessárias são parte dessa trajetória que não permitirei que seja apagada.

Não permitirei que apaguem aquilo que eu vivi, aquilo que construí e aquilo pelo que lutei.

Continuarei denunciando a intersexofobia onde ela estiver: na medicina, nas instituições, na sociedade, na academia ou dentro dos próprios movimentos sociais.

Pessoas intersexo existem.
Mulheres intersexo existem.
Mulheres intersexo podem engravidar.
Mães intersexo existem.
Mulheres intersexo fazem ciência.
Mulheres intersexo fazem história.

E nenhuma dissertação, instituição ou pessoa tem o direito de apagar nossa existência.

Apagamento também é violência. Apagamento também é intersexofobia.

Intersexo #Intersexofobia #MulheresNaCiência #VisibilidadeIntersexo #DireitosHumanos

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