Memória, Luta e Cidadania: Museu da Diversidade Sexual Celebra 10 Anos do Legado de Jacob Cristipher e Conquistas Intersexo
Na data em que a comunidade global se prepara para o Dia da Visibilidade Intersexo (26 de outubro), o Museu da Diversidade Sexual (MDS), localizado na Estação República do Metrô em São Paulo, transformou-se em epicentro de debate, arte e memória histórica.
No último sábado, 24 de outubro de 2026, o espaço recebeu a abertura e a programação especial da exposição “Memória, Luta e Direitos Intersexo: Telas, fotografia e notícias que marcaram a luta intersexo no Brasil”.
Com um acervo visual e documental que reúne fotografias, obras em tela e reportagens históricas, a mostra resgata marcos fundamentais da incidência política no país, colocando em evidência os avanços obtidos contra a patologização e a invisibilidade social de pessoas que nascem com variações nas características sexuais biológicas.
Uma Década de Impacto: O Legado de Jacob Cristipher
O grande fio condutor do encontro foi a celebração dos 10 anos de nascimento de Jacob Cristipher, figura central para a virada de chave dos direitos intersexo contemporâneos no Brasil.
A trajetória e a vivência de Jacob, compartilhadas publicamente por sua família, romperam o silêncio e o isolamento que historicamente cercavam o nascimento de bebês intersexo. Essa visibilidade impulsionou debates antes restritos a consultórios médicos para o centro do debate público, motivando a criação da ABRAI (Associação Brasileira Intersexo) e catalisando a formulação de diretrizes normativas essenciais no sistema judiciário e de saúde brasileiro.
Para marcar essa trajetória com sensibilidade e arte, a programação contou com uma apresentação marcante de chairdance, que expressou por meio do movimento corporal e da dança a história, a delicadeza e a força do legado de Jacob na construção de uma sociedade mais acolhedora.
Também foram expostos desenhos de Guilherme Campos, irmão de Jacob, dos ativistas brasileiros.
Roda de Conversa: Da Resistência aos Marcos Normativos
A programação teve como ponto alto a roda de conversa com ativistas, juristas e especialistas de referência nacional no tema: Thais Emilia de Campos dos Santos, Beto Santos, Moni Porto e Talita Fabiano de Carvalho.
Os participantes traçaram a linha do tempo das ações de base e articulações institucionais que retiraram a pauta intersexo da marginalidade e resultaram em instrumentos jurídicos e regulatórios sem precedentes no país, com destaque para:
- Resolução CNJ (2021): O Conselho Nacional de Justiça estabeleceu parâmetros para o registro civil de crianças intersexo, assegurando a dignidade, o direito à certidão de nascimento sem exigência de redesignação cirúrgica precoce forçada e o respeito à autonomia corporal.
- Resolução CFP nº 16/2024: Diretriz do Conselho Federal de Psicologia que estabeleceu normas éticas e práticas de atuação para profissionais de psicologia junto a pessoas intersexo, vedando práticas desumanizadoras ou baseadas em estigmas e reforçando o cuidado integral e afirmativo.
- Demais normativas e políticas públicas: Debates sobre o avanço do diálogo com o Sistema Único de Saúde (SUS) para interromper procedimentos médicos e cirurgias cosméticas invasivas não consentidas durante a infância.
Durante a atividade, houve também a distribuição gratuita de materiais informativos, cartilhas educativas e livros voltados à conscientização da sociedade civil sobre a pluralidade dos corpos e o direito à autodeterminação.
A exposição segue aberta ao público no Museu da Diversidade Sexual, firmando a arte e a documentação histórica como ferramentas indispensáveis de educação em direitos humanos.
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