ESPELHO DA REALIDADE: A Urgência de “Minha Querida Senhorita”

Por Redação ABRAI

O cinema e a arte, historicamente, carregam o poder de dar contornos visíveis àquilo que a sociedade insiste em empurrar para as margens do esquecimento. No entanto, quando o assunto é a vivência intersexo, esse espelho artístico quase sempre se mostrou distorcido por lentes patologizantes, fetichistas ou, no limite, pelo mais absoluto silêncio. É nesse cenário de vazios representacionais que a estreia de Minha Querida Senhorita (2026) se consolida não apenas como um marco cinematográfico, mas como um manifesto sensível e urgente que ecoa diretamente nas
pautas defendidas pela ABRAI.

Com direção de Fernando González Molina e roteiro da intelectual e escritora espanhola Alana S. Portero, o longa é uma adaptação livre do clássico homônimo de Jaime de Armiñán, que concorreu ao Oscar em 1972.

Mas se a versão da década de 1970 precisou se camuflar sob os filtros da censura franquista — utilizando um ator cisgênero e o jargão médico como álibi — , a versão de 2026 arranca as coberturas do silenciamento ao trazer, no papel principal, a estreante Elisabeth Martínez, uma mulher intersexo

A Tese Moral: O Contrato Sobre o Corpo

A trama acompanha Adela (Martínez), uma jovem de 25 anos que vive sob a rotina rígida e devota de uma Pamplona conservadora em 1999. Professora de catequese, ela repete mecanicamente para seus alunos que o corpo é um "propósito ordenado de Deus".

O nó central do filme, contudo, não reside na "descoberta" tardia de Adela sobre sua própria biologia após um problema de saúde, mas sim no acordo político e familiar que antecedeu sua existência consciente.

Em 1976, numa sala de parto, médicos e familiares assinaram um contrato invisível sobre o corpo de Adela, decidindo o que ela teria permissão de ser. Educaram-na no binarismo estrito, omitindo sua condição intersexo e empurrando-a para um vocabulário moral e religioso que simplesmente não possuía cláusulas para acolher a sua realidade.

Para a ABRAI, a narrativa de Adela ilustra com precisão cirúrgica a violência da “invisibilidade programada” . O filme acerta profundamente ao não transformar a personagem em uma metáfora idealizada, mas ao focar na paciência dolorosa de uma realidade onde a própria família mentiu em nome de uma suposta proteção.

Do Cinema de 1999 à Realidade Brasileira de 2026

Embora ambientado no final do século XX, o filme dialoga de forma desconfortável com o presente. Na Espanha contemporânea, o debate legislativo sobre a proibição de cirurgias cosméticas e mutilatórias não consentidas em recém-nascidos intersexo continua em disputa.
Ao olharmos para o Brasil, o espelho é igualmente incômodo.
No cenário nacional, ainda vigora a Resolução CFM nº 1.664/2003 do Conselho Federal de Medicina que, embora tente traçar critérios éticos, perpetua a lógica de intervenções precoces de "normalização" para adequar corpos saudáveis à anatomia binária, amparadas puramente pelo consentimento parental e pela pressa médica.

A Manobra temporal de Alana S. Portero nos obriga a encarar as sequelas de longo prazo dessas decisões: o filme nos convida a testemunhar os desdobramentos na vida de uma mulher adulta que foi privada do direito fundamental de conhecer e habitar a própria corporalidade.

A Recusa da Transcendência Fácil

Outro ponto alto da obra, crucial para o debate sobre direitos humanos, é a recusa de soluções fáceis ou desfechos românticos de "cura". Ao migrar para Madri na segunda metade do filme, Adela encontra redes de apoio — como a fisioterapeuta Isabel (Anna Castillo) e o padre José María (Paco
León) — , mas o roteiro de Portero não adota a cartilha da transcendência imediata.
O ambiente urbano não apaga a violência do segredo violado. O filme mantém Adela — e o espectador — dentro da pergunta, respeitando a complexidade de sua dor e de sua reconstrução identitária.

O Papel Político da Representatividade Real

A escolha de Elisabeth Martínez para o papel principal é, por si só, o próprio cerne político da obra. Enfrentar as críticas de mercado para garantir que uma vivência intersexo seja interpretada por um corpo que compreende intrinsecamente essa travessia é uma postura estética e ética inegociável.
A arte só se torna verdadeiramente sensível e profunda quando abre espaço para que os sujeitos de suas histórias ocupem o centro do palco.

“Minha Querida Senhorita” deixa uma provocação vital para o público brasileiro e para todas as instituições de saúde e direitos humanos: **em quantas salas de parto, hoje, a decisão arbitrária de mutilar e silenciar o corpo de uma criança intersexo continua sendo reproduzida sob a assinatura do binarismo compulsório?

A ABRAI recebe esta obra não apenas como um grande momento do audiovisual contemporâneo, mas como uma ferramenta pedagógica e afetiva fundamental para que o direito à integridade corporal e à verdade histórica das pessoas intersexo deixe de ser uma ficção e se torne, finalmente, um direito garantido.

Minha Querida Senhorita” (2026), produzido pela Suma Content, está disponível globalmente na Netflix.

25 de maio de 2026 | Sem categoria | por Talita

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